A reforma tributária chegou ao setor de tecnologia para desafiar tudo aquilo que já entendíamos sobre precificação, margens e contratos. Mais do que mudanças de alíquotas ou novas siglas, ela mexe na estrutura do negócio das empresas de tecnologia, mudando nossa relação com o cliente, com a folha de pagamento, com cláusulas contratuais e até com sistemas automáticos de faturamento. Nós, da EleveTech, acompanhamos de perto essas mudanças e queremos compartilhar nossa visão prática sobre o que vem por aí, e como preparar o seu negócio para o cenário que começa de verdade em 2027.
O que muda na reforma tributária?
Muito além das dores do departamento fiscal, a reforma tributária coloca luz em temas como precificação, margem de contribuição e gestão de contratos em empresas de software, SaaS, data centers, startups, marketplaces e prestadores de serviços de TI. O fim do PIS e da Cofins representa não apenas uma mudança de nomes, mas um novo formato de apuração, com a entrada da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).
Dois pontos merecem destaque:
- O modelo de negócios passa a ser parte central da estratégia tributária, não apenas uma questão fiscal.
- Custos com folha de pagamento, que representam grande parte do orçamento em tecnologia, não geram créditos de IBS e CBS. O resultado? Possível aumento da carga tributária real, mesmo se seu faturamento não crescer.
Não basta perguntar quanto imposto vamos pagar. O verdadeiro desafio é: será que a margem atual sobrevive à reforma?
Características e desafios do setor de tecnologia
Quem oferece suporte de informática ou tecnologia, vende SaaS, mantém plataformas digitais ou administra infraestruturas digitais conhece bem a composição de custos dessa área:
- Grande parte dos custos está na folha de pagamento.
- Atendimento remoto a clientes de todas as regiões do país.
- Receitas recorrentes, contratos de médio e longo prazo.
- Alto uso de sistemas automáticos para faturamento, emissão de notas fiscais e cobrança.
- Atuação tanto no B2B quanto no B2C, com diferentes exigências tributárias.
O peso dos salários e encargos sociais é imenso, mas, na reforma, isso não gera créditos tributários. Os créditos virão, em geral, de insumos comprados – o que não é o principal insumo em TI.
Basta um erro de classificação fiscal para multiplicar impactos em centenas de notas fiscais emitidas automaticamente. Em tecnologia, detalhes ganham escala.
Esqueça a velha guerra ICMS x ISS
Com a chegada do IBS e da CBS, aquela antiga discussão sobre “isso é produto ou serviço?” perde importância. Grande parte dos bens, direitos, serviços – inclusive digitais – cai dentro da mesma base tributária. Mas não descanse: a natureza de cada operação ainda precisa ser corretamente definida para apontar local, momento e regras da tributação. Isso afeta inclusive importação e exportação.
No novo sistema, tudo é tributado, mas a classificação fiscal ainda é decisiva.
Se vendemos um software via SaaS, por exemplo, devemos entender onde está o cliente e como ocorre o uso da solução. O local de consumo determinará o destino da tributação e exige atualização rigorosa dos cadastros: endereço, município, estado, CPF ou CNPJ do cliente passam a ser parte da obrigação tributária, não só um dado para contato comercial.
Margem ameaçada: o caso prático do SaaS
Vamos ilustrar com um exemplo realista:
- Empresa SaaS fatura R$ 500 mil por mês.
- R$ 220 mil vão para salários e encargos (folha de pagamento).
- Despesas em folha não geram crédito de IBS/CBS.
Se antes esse SaaS podia abater parte dos impostos com créditos de compras ou outros custos, agora vai depender quase exclusivamente do consumo de insumos tributáveis. Se não recalcular preços, pode ver sua margem encolher sem que o faturamento mexa um centavo.
Na prática, para manter o mesmo resultado financeiro, é preciso ajustar, talvez aumentar, preços e conversar com todos os clientes impactados para atualizar contratos.
Margem não é um número fixo, ela reage à tributação.
Impactos distintos em B2B e B2C
A mudança tributária não afeta todo mundo da mesma forma. Empresas que vendem para outras empresas (B2B) conseguirão usar o crédito tributário como argumento comercial: quanto mais crédito você gera para o seu cliente, mais competitivo pode ser seu preço líquido.
Já quem vende direto para o consumidor final (B2C), como aplicativos por assinatura, plataformas, streaming, jogos digitais, pode ser forçado a:
- Repensar preços, porque o cliente final não tem direito a crédito.
- Absorver parte do aumento da carga na própria margem, correndo o risco de ver o lucro diminuir a cada renovação.
Contratação, fluxo de caixa e contratos: tudo diferente
Esse novo cenário muda até mesmo o cotidiano da gestão financeira e de cobrança. Com o split payment, por exemplo, o imposto é apartado já no pagamento, e só o valor líquido entra no caixa da empresa. Isso exige:
- Novos sistemas de conciliação bancária.
- Controles detalhados de reembolsos, cancelamentos e cobranças recorrentes.
- Ajustes no capital de giro disponível.
Os contratos precisarão de cláusulas específicas sobre reajuste em função da nova tributação, destaque do imposto, localização do cliente, detalhes sobre split payment, e mais.
Split payment muda o caixa antes mesmo de você perceber.
Marketplaces e plataformas digitais: atenção redobrada
Marketplaces, plataformas de intermediação e soluções de pagamento digital ganham papel fiscal ainda mais relevante. Dependendo do grau de controle que exercem na operação (gestão de fluxo financeiro, cobrança, entrega), podem ser obrigados a recolher IBS e CBS diretamente. Ou seja, a responsabilidade tributária pode se deslocar para o intermediador, exigindo novos sistemas, regras e políticas de cobrança e repasses.
Importação, exportação e descentralização de pagamentos
No universo de tecnologia, importar ou exportar serviços é comum. Pagamentos feitos a fornecedores do exterior, via conta, cartão, intermediários ou plataformas, precisarão ser muito bem documentados. Caso contrário, podemos perder o direito a crédito tributário por falta de comprovação adequada do vínculo entre despesa e operação. Isso cria riscos e exige revisão dos fluxos financeiros e operacionais.
Para a exportação, a boa notícia é que serviços e bens intangíveis ainda permanecem desonerados, mas todo cuidado é pouco: contratos genéricos não bastam. Precisamos informar com clareza onde se dá o resultado econômico, quem contrata, de que modo ocorre pagamento e consumo.
Importação: atenção ao crédito e documentação
Tudo que for pago para fora do Brasil precisa estar muito bem amarrado em contratos e sistemas para garantir direito ao crédito tributário no novo sistema.
Simples Nacional: ainda vale a pena?
Empresas de pequeno porte costumam ver o Simples Nacional como regime default, mas, depois da reforma, será necessário avaliar se ainda vale a pena permanecer nesse enquadramento, em especial se os clientes são empresas de médio e grande porte B2B. Isso porque o crédito tributário gerado pode se tornar argumento decisivo para a escolha do fornecedor.
Checklist para preparação até 2027
Para não ser pego de surpresa no início da CBS e do IBS, recomendamos um roteiro prático:
- Diferencie receitas por tipo de operação (SaaS, suporte remoto, consultoria, comercialização de plataformas, armazenamento em nuvem como o ELVDrive).
- Classifique despesas e identifique aquelas que gerarão crédito tributário.
- Segmente clientes entre B2B e B2C.
- Calcule margem por produto ou serviço.
- Reavalie contratos, incluindo cláusulas para reajuste, split payment, atualizações cadastrais do cliente e repasses tributários.
- Atualize todos os cadastros – endereço, município, CPF/CNPJ do cliente, etc.
- Teste sistemas para todos os cenários: cancelamentos, reembolsos, cobranças recorrentes e anuais, exportação, importação.
- Revise preços, planos e pacotes de serviços (mensal, anual, por usuário, consumo, suporte, descontos, comissões).
- Crie um comitê interno multidisciplinar (comercial, fiscal, financeiro, jurídico, tecnologia, diretoria).
- Acompanhe com atenção toda regulamentação futura das normas EC 132/2023, LC 214/2025, LC 227/2026 e outras aplicáveis.
Cuidado: um erro no cadastro de clientes pode causar recolhimento indevido para cidades ou estados errados.
O contador: um novo protagonista estratégico
O contador deixa de ser apenas o responsável pelo cálculo dos impostos. Ele passa a ser peça-chave em decisões comerciais, contratuais e até tecnológicas, revisando base de dados, fluxo de caixa, regras de faturamento, escolha de sistemas de gestão e interface entre áreas. Empresas que enxergam esse papel ganham velocidade e assertividade.
Como a reforma impacta nossos serviços e soluções
Na EleveTech, todos esses desafios são realidade diária. Desde consultoria para escolha de equipamentos, instalação de softwares, configuração de certificados digitais, até suporte técnico especializado para contadores e adaptação às novas exigências legais. Nossa consultoria de TI já vem sendo redirecionada para ajudar clientes a planejar, classificar e mapear essas mudanças, minimizando riscos e protegendo margens.
Além disso, nossa solução de armazenamento em nuvem, ELVDrive, garante segurança de documentos, colaboração e compartilhamento adaptados às exigências da LGPD e das novas obrigações da reforma tributária. Isso inclui auditorias, backup automatizado e controle de acessos. Somos especialistas em preparar o ambiente tecnológico para a nova era fiscal.
Se quiser entender mais sobre como a tecnologia transformou o setor contábil e está mudando o suporte às empresas, indicamos uma leitura sobre o assunto em nosso blog: Como a tecnologia mudou a contabilidade.
Erros comuns a evitar na parametrização tributária
Automatizar para ganhar escala é regra na tecnologia, mas, sem validar parametrizações tributárias, um erro é multiplicado aos montes. Algumas recomendações práticas:
- Evitar copiar e colar cadastros de clientes antigos sem atualizar dados de localização.
- Classificar erroneamente a natureza da operação pode causar pagamento indevido de impostos em cenários interestaduais e internacionais.
- Negligenciar cláusulas de reajuste e split payment em contratos pode travar repasses ou causar prejuízos inesperados.
Configuração errada no sistema = dezenas ou centenas de notas fiscais equivocadas.
O que fazer agora? Nossa visão prática de quem vive a tecnologia todos os dias
Não subestime o impacto da reforma tributária: ela não vai apenas transformar a cobrança de impostos, mas também o modo de vender, contratar, precificar e administrar negócios de tecnologia.
Para quem oferece soluções de TI, antecipar-se é o único caminho para garantir margens e continuidade comercial. Deixar para 2027 pode custar caro. É hora de sentar com setores jurídico, financeiro, comercial, tecnologia, fiscal e preparar o negócio.
Sim, vai dar trabalho. Mas, ao nos adiantarmos, temos tempo para ajustar sistemas, treinar equipes, negociar com clientes, renegociar contratos e revisar modelos de remuneração, seguros e comissões.
Separamos outros artigos para quem quer se aprofundar em desafios como LGPD ou segurança da informação, pontos diretamente afetados pelo novo modelo:
- Como a LGPD afeta sua contabilidade
- O impacto do suporte digital nas contabilidades
- Passos para garantir segurança da informação
Conclusão: não é só imposto, é transformação
A reforma tributária é sobre muito mais do que mudar a forma de calcular impostos: é sobre se adaptar para vender, gerir, contratar e inovar sob novas regras. O impacto sobre preço, margem, contratos e sistema de TI fará toda diferença para quem quer permanecer competitivo e seguro.
Aqui na EleveTech, nossa missão é ajudar empresas a se prepararem de maneira clara, didática e acessível para esse novo cenário. Procurando suporte confiável para atravessar essa mudança? Conheça mais sobre nossos serviços e soluções de nuvem. A verdadeira transformação começa com informação e ação.
Prepare agora. Só assim a margem não some, e o negócio se mantém relevante no novo mercado.
